Davi Carneiro Davi Carneiro
Antônia Clementino (Vó)

Antônia Clementino (Vó)

Talvez vocês não saibam, mas eu tendo a ser muito frio na maioria das situações. Hoje não foi diferente, eu estive sério pela maior parte do tempo. Tive que ser ombro forte e firme para minha mãe e meus tios, comprar almoço para todos presentes, e ficar a disposição de qualquer coisa que fosse necessário.

A verdade é que minha vida sempre foi assim. Engolir o choro pra consolar, guardar a dor no bolso pra suportar a de outros. Já faz parte de mim, e eu tenho certeza que esse gene foi passado pela minha vózinha que hoje está com Cristo

Durante o sepultamento, meu tio falou uma verdade enorme. Se minha vó pudesse falar uma única coisa ao ver todos os que estavam ali presentes, falaria “e tem comida pra toda essa gente?”. É a preocupação de ter sempre gente boa e feliz ao redor. Estar sempre a serviço.

E foi assim até a metade do velório, quando uma nova coroa de flores chegou. Ao avistar a funcionária entrando com ela, pensei “ela deve ter errado, deve ser pra outra pessoa que está sendo velada”. Eu nunca fui de esperar serviço dos outros, Ainda mais em momentos tão particulares e difíceis como a ida de um ente querido (e assumo que isso é um problema).

Acontece que a coroa era pra minha avó sim. Enviada por Larissa, Yanko, Giulianne, Samyra e Jully, mas construída, perfumada e carregada por mais de trinta mensagens recebidas do mundo inteiro, como por Cristian, da Argentina, Alex, dos Estados Unidos, e Ani, de algum país da Europa que não me recordo agora.

É que não foi apenas uma coroa de flores. Pra mim, foi a mesma sensação de respirar fora d’água depois de um mergulho profundo, ou o primeiro gole d’água após um dia cansativo. Foi um “isso é a vida” em meio a morte.

Hoje, dia 5 de Janeiro de 2026, me despeço de Antônia de Figueredo Clementino, mãe de 8 filhos, avó de mais de 10 netos, depois de meses de sofrimento, e uma missão mais que cumprida. Que fique bem claro, os meses de sofrimento teriam sido infinitamente piores sem o apoio de todos que tentaram se fazer presentes, cada um do seu jeito e ao seu alcance.

Como ela sempre dizia, parafraseando filósofos do estoicismo: “Estudar é amargo, mas os frutos são doces”.

Vocês, amigos, são meus frutos. Vocês me ensinaram hoje o que é a alegria em meio a dor. Vocês são a coroa de flores do jardim que eu quero chamar de vida.

Muito obrigado. Davi. Neto de dona Antonia.